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Em Seul, trem-bala também fatura com varejo
Valor Econômico - 8/2/2010
Na capital coreana, as duas estações do trem KTX, de alta velocidade, são, na verdade, grandes shopping centers instalados no centro da cidade. O principal dos terminais, Yougnstan, é um edifício de nove andares construído em uma área às margens do rio Hangsang, com seis pavimentos dedicados a lojas de aparelhos eletrônicos - em cada andar, um tipo de equipamento, como câmeras, computadores, TVs de LCD e celulares. Os demais são tomados por lojas de departamento e vestuário. No térreo, ao lado da praça de alimentação, é possível lembrar que se trata de uma estação de trem: sob discretas placas em azul e branco, encontramos os guichês da bilheteria. A segunda estação, chamada Seul, fatura mais com o comércio do que com o KTX - 60% da sua receita vem da locação de lojas.

Outros terminais, espalhados pela Coreia do Sul, são mais comedidos, mas cada um tem seu espaço dedicado a vender um pouco de tudo.

A situação não é apenas manifestação natural da verve empreendedora do povo coreano, mas uma estratégia deliberada para engordar o caixa da operação e tentar trazer rentabilidade ao negócio do trem-bala. Consultor do governo da Coreia desde os primórdios do projeto do TKX, em 1989, e responsável pelo desenvolvimento do projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV) para o Brasil, Daniel Suh calcula que hoje 30% da receita do trem vem da locação de lojas.

Os shoppings instalados nas estações não são concessões: pertencem a sociedades de propósito específico ligadas à Korail, a estatal coreana responsável pela gestão da malha ferroviária.

Com o mesmo objetivo, a empresa está concluindo um projeto ainda mais ambicioso na área imobiliária, que poderá deixar o KTX definitivamente no azul.

O terminal de Yongsan está localizado em uma área relativamente degradada da margem norte do Rio Hangsang - do outro lado do rio, estão instalados alguns dos edifícios mais luxuosos de Seul, como a Torre 63, um dos cartões postais da cidade.

Próximo à estação do trem-bala estão 356 mil metros quadrados de pátios de manobra e galpões de manutenção da Korail. Finalizado em 2008 depois de 4 anos de negociação, um projeto envolvendo a operadora ferroviária, prefeitura de Seul, governo da Coréia e um consórcio liderado pela divisão imobiliária da Samsung pretende investir nada menos do que US$ 28 bilhões na região até 2016 - o plano é construir um conjunto de grandes torres comerciais e residenciais.

Dona de 60% da área do empreendimento, a Korail entrará com 25% na sociedade, o que, calcula, deverá lhe garantir uma receita total de US$ 8 bilhões. O valor é suficiente para pagar dois terços do investimento feito na malha atual do KTX, que custou US$ 12 bilhões.

Os bons resultados das fontes extras de caixa são uma notícia bem-vinda para o KTX, que não teve uma vida propriamente fácil desde que foi concebido.

A sua primeira linha foi inaugurada em 2004 em um trecho de 50 km entre a cidade de Gwangmyeong, ao sul de Seul, e as cidades de Cheonan e Asan - depois de uma obra de 12 anos, arrastada por disputas políticas e problemas de desapropriação.

No primeiro ano de operação as vendas do KTX ficaram em 50% do previsto. O movimento vem crescendo a uma taxa de 25% ao ano desde então, mas ainda não é possível dizer que trata-se de uma operação rentável. Com capacidade para cerca de 500 mil passageiros/dia, o KTX movimenta 110 mil passageiros/dia durante a semana e 180 mil passageiros nos sábados e domingos.

A linha do KTX tem hoje 288 km, deve ganhar mais 124 km até o fim do ano e prevê outros 352 km até 2017.

Com a linha reduzida e a demanda fora de prumo, o KTX acabou ficando com capacidade ociosa. Para acomodar a situação, parte das 46 composições que servem o KTX estão emprestadas para uma linha de trens convencional de 352 km, a ferrovia de Honam, que liga o centro do país à cidade de Mokpo, no extremo sul - nessa linha, os KTX trafegam a 150 km/h, ao invés dos 300 km alcançados na malha de alta velocidade.

Hoje, a capacidade dos trens do KTX está saturada, mas não há previsão de quando as unidades cedidas voltarão a trafegar na sua linha própria.

Outras estações da rede do KTX estão no centro de outros grandes empreendimentos imobiliários. Ainda que sem particiação acionária da Korail, esses projetos, no mínimo, podem ajudar a aumentar o volume de passageiros. O mais avançado é um conjunto instalado ao redor da estação de Cheonan-Asan.

Propositalmente, a estação foi instalada em uma área desocupada entre as duas cidades que batizam o terminal, para acomodar um loteamento de 3,6 milhões de metros quadrados voltado a edifícios residenciais e comerciais.

O primeiro estágio será instalado em um terreno de 58 mil metros quadrados, com apartamentos de 200 metros quadrados, algo que, na Coréia, significa alto poder aquisitivo - um apartamento bem localizado em Seul, com 100 metros quadrados, pode custar US$ 2 milhões.

O projeto é tocado por um consórcio de 13 construtoras e investidores, além do Nacional House Corporation, empresa habitacional do governo coreano.

Outro projeto com apoio da Korail está em Busan, uma cidade turística e portuária ao sul do país. A ideia é a revitalização da parte antiga do porto, hoje o 5° maior terminal de contêineres da Ásia. Estrategicamente, a estação do KTX na cidade, prevista para ser inaugurada este ano, foi instalada bem ao lado da área que receberá o projeto.

Tocado pela autoridade portuária local, o plano prevê um investimento de US$ 1,5 bilhão para aterrar a parte antiga do terminal de carga e transferi-lo para uma ilha artificial a 25 km de distância do local.

Sobre o aterro, será construído um parque com espaço para restaurantes e marinas. Em frente ao parque, e de costas para a estação final do KTX, as construtoras poderão aproveitar um terreno de 1,5 milhão de metros quadrados.
 
 
jornais e agencias
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